Questão de sorte


Digamos que me deu vontade de escrever.

Ando olhando fixamente pelas janelas de todos os lugares. Gosto especialmente das janelas dos ônibus. Andando, andando, tudo mudando.

Ando pensando nas mudanças, demasiadamente, penso tanto que fico sem tempo pras coisas importantes. Importantes? Que coisas? Bagunça na cabeça.

Tenho aprendido sobre política, tenho visto coisas pelos olhos de outras pessoas, pelas visões e conhecimentos de outras pessoas. Bacana isso.

A diversidade sempre me encanta.

Achei uma lagarta verde na minha varanda ontem, ela estava quietinha, pensei que estivesse morta, depois surgiu a esperança de ela estar virando casulo, vou esperar. Vou torcer pra que de dentro do casulo saia uma borboleta azul que se confunda com o céu quando voar.

Isso seria muita sorte.

Uma definição, muitas vezes, é uma questão de sorte.

Janaina de Oliveira

Carrossel Infantil




Lembro de ter 10 anos, estou brincando em um carrossel, colorido, intrigante, cheio de cavalos diferentes e altivos, é tudo muito livre e divertido, cheio de altos e baixos.

Ele também é perigoso, esqueceram de dizer isso. As cores e o brilho sempre escondem perigos, eu deveria saber!

Depois de tanto brincar e me machucar, decidi pular fora enquanto ainda podia. Difícil, pois ele gira muito rápido. O baque da queda foi forte, minhas feridas ainda nem estão cicatrizadas, as vezes acho que nem me levantei direito e ainda estou lá pedindo ajuda pra alguém que passa e olha.

Sinto saudades.

Mas não tenho mais 10 anos, e agora meu estômago embola só de pensar no rodopios do carrossel, eu já tenho 63 anos.

Ainda gosto dos cavalos, mas hoje prefiro os que estão livres e vivos, e não vejo beleza naqueles que ficam presos por um ferro vertical subindo pra cima e pra baixo. São compassados, contidos, o movimento de rotação traz uma falsa impressão de liberdade.

São todas fantoches dentro daquele carrossel medonho, pobres crianças indefesas.

Janaina de Oliveira

Mundo da lua e outros poemas


Um dia
Você se dá conta
Que a paixão
Não vem pronta
Nem fica tonta
Por tanto tempo
Os modos
Mudam
Os medos
Nos fazem mudos
E o que era tudo
Torna-se agora médio
Que remédio...
Senão matar esse pavor
Com um amor
Maior que o tédio

Uma das poesias do livro “Ménage à Trois” da escritora Paula Taitelbaum.

Janaina de Oliveira