Tempo perdido (parte 3)


Finalmente é sexta feira,
depois de quase três meses esperando minha casa ficar pronta.

Na verdade ela já está pronta há alguns dias, prontinha mesmo, com tudo arrumado e limpo. Decidi só vir pra cá hoje, sexta feira, depois do expediente, quero curtir minha casa nova o fim de semana inteiro.

Cheguei cansada, deitei e rolei nos sofás novos, no tapete velho da minha tia e na minha cama, com aquela cheirinho de quarto novo.

Antes de ir pra casa passei no super mercado e comprei verduras, queijo, frango e vinho, vou cozinhar e comer sozinha, assistir qualquer canal e dormi onde eu quiser.

Tenho planos de admirar o jardim amanhã, nem me importo se vai chover ou fazer sol, mas se pudesse escolher, escolheria o sol. O cavalete iria sair do quarto e iria para o lado do banco de ferro.

Como eu gosto daquele banco, branco, recém pintado. Lembranças vem e vão quando estou nele, agora a vista dele não é mais pra uma cidade suja e poluída, mas pra um jardim que, segundo a vizinha, já atrai borboletas coloridas.

Os quadros amanhã também serão coloridos, e doces.

Vou procurar os filhotes amanhã, ainda nem puder ver como ficou o canil, mas terei tempo de sobra pra isso. Acho que quero três filhotes, ainda não decidi se serão machos ou fêmeas, mas quem liga, já está tudo muito bom.

A noite vou ouvir música clássica, dançar sozinha e beber vinho. Os filhotes, de olhos grandes, não vão entender nada. Acho que vou deixá-los dormi comigo, vou dizer que é só por um dia, mas sei que meu coração mole vai deixar que eles fiquem por mais tempo.

Domingo é dia de praia. Vou ficar em casa, espatifada, de pijama. Vou ler e inaugurar a banheira com os sais que ganhei.

No final do dia vou preparar o trabalho da segunda e me lamentar porque o fim de semana acabou, me perguntar por que a vida não pode ser sempre como aqueles dias, filosofar sobre os sentimentos mundanos...

E a vida continua seguindo...

Janaina de Oliveira

Tempo de chuva




Já teve um tempo em que realmente achei que as coisas eram fáceis, os dias passavam, as crianças cresciam, o tempo passava a gente esquecia.

Mas hoje não está ventando, aqui é tudo muito seco, as pessoas dizem que eu preciso me acostumar, respondo pra mim mesma que não vou ficar muito tempo, mas não estou convicta, estou apenas torcendo.

Semana passada choveu um dia inteiro, e tudo estava cinza. Procurei cores e formas, nada.

Voltei pra cama e tentei dormi, mas alguma coisa dentro de mim doía e clamava por movimento, calcei um tênis e saí pra correr.

Durante o percurso, que não tinha início nem fim, pensei por que levantei da cama. Por que não fui para o trabalho? Por que perdi o ônibus? Só perguntas, sem respostas. Encontrei um gato comendo lixo e chorei.

A chuva caia cada vez mais forte, peguei o gatinho e fiquei ali chorando enquanto ele tentava se aquecer em minhas roupas molhadas. Conversamos por um tempo. Levei ele comigo e agora está dormindo aqui do lado da mesa.
Quero ir embora, parar de chorar e de lembrar os dias que nunca passam. 

Quero parar de usar essas roupas compridas, tristes, escuras e pesadas.

A minha necessidade agora é ter o melhor dia da minha vida.

Quando você vem me buscar?

Janaina de Oliveira