A montanha



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Essa noite tive um sonho, um daqueles que a gente acorda sem saber se realmente aconteceu. Eu quase podia ver por trás da montanha, mas uma coisa me puxava e uma voz me dizia que eu não conseguiria alcançá-lo.
Por um estante o cenário mudou, estava perdida no meio de uma selva escura e fria, cada passo que eu dava, cada movimento que eu fazia parecia perdido e sem direção. O medo era tão grande, parei e chorei por toda a noite, mas a noite não terminava, ela ficava cada vez mais longa.
Acabei percebendo que não ia adiantar chorar, que a noite não ia acabar e que ninguém ia me buscar. Resolvi tentar. Arrumei-me, enxuguei as lágrimas, ergui a cabeça e segui, ainda perdida.
Achei de novo a montanha, voltei a subir. Algumas partes estavam escorregadias, por vezes senti muito frio, ouvi vozes estranhas. Subi sozinha, enfrentei meus medos, fiz tantas escolhas, parei tantas vezes pra poder seguir em frente. Cheguei ao topo, e quando quase vi o que estava atrás dela voltei de novo pra floresta medonha.
Mais uma vez o desespero bateu, achei que tivesse caído. Dessa vez eu não chorei, levantei decidida que subiria de novo. No final da montanha eu já estava prevendo o que ia acontecer. Foi aí que eu percebi que eu não estava caindo. Que as montanhas e florestas eram diferentes. Acordei sorrindo.
Sempre haverá uma outra montanha, e eu sempre vou querer movê-la, sempre vai ser uma batalha difícil e às vezes eu terei que perder. Só tenho que continuar, eu tenho que ser forte, continuar seguindo.
Eu posso até fingir que não sei disso, mas esses são os momentos que eu mais vou lembrar durante a minha vida, os de subida. Não se trata de quando eu chegarei lá, nem do que está me esperando. É a subida.



Fresco amor




"Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio, trovão, fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." (Caio Fernando Abreu)

Janaina de Oliveira

Comida mexicana


''Origem das duas Fridas. Recordação. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (...) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas...''
Diário de Kahlo, sobre a tela As Duas Fridas

Janaina de Oliveira