Pedaços de mim




Hoje acordei e lembrei do dia que você se foi.

Cabisbaixa, sozinha, ferida. Acho que as suas feridas e a sua vontade de me dizer desaforos eram tantas que preferiu se calar.

Aquele dia foi doído pra mim, não só o dia, mas os dias que se seguiram a ele. Doía por mim e doía por você.

Eu lembro de todas as palavras duras e sinceras que te disse.

...

Hoje eu acordei e um vazio apertava no meu peito, era a falta de você.

Depois daquele dia nos encontramos uma única vez, você estava viva e bela. Eu acabaria por fazer uma besteira na noite, pouco depois que nos despedimos.

...

É, eu sei que você não sabe disso, porque haveria de saber? Eu te mandei embora. Ultimamente tenho te procurado desesperadamente, sem nem perceber.

Procuro você nos lugares mais bonitos e nos mais feios, nos alegres e nos tristes, prováveis e improváveis.

Tem sempre uma parte de mim que chora, sozinha e escondida, ela se esconde tão bem, a pequena; mas a intensidade é tanta que acaba por ferir cada vez mais fundo.

...

Hoje sinto que não posso mais te ter comigo, e também temo em você não ser mais o que era. Provavelmente não é, eu também não sou.
Sinto que o meu mundo está ruindo.

As vezes tento consertar as paredes dessa casa velha, tapar os buracos, mas eles teimam em crescer. Está tudo tão vazio, tão frio.

Onde será que se meteu o sol? Onde estão as cores amarelas, alaranjadas e roseadas do final do dia? E as crianças?

Mendigo nas ruas, peço trocados de afetos, vivo da pena de uns e do engano de outros. As boas paixões você levou, junto com a verdade, junto com a coragem e os sonhos.

Eu fiquei com a parte irreal da vida, com a inexistência dos sons e sorrisos.
Eu não tenho mais nada, além do pedaço de mim que sobrou.

Janaina de Oliveira